O que você precisa saber sobre o Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho

A pandemia do novo coronavírus trouxe mudanças significativas para a sociedade.

Para evitar um colapso no sistema público de saúde, os governos tiveram que decretar o fechamento de empresas e até mesmo o lockdown (fechamento total das companhias e comércio) em algumas cidades. Isso fez com que muitas organizações fossem afetadas financeiramente, tendo que demitir colaboradores.

Para você ter uma ideia, em maio de 2020, segundo reportagem do portal G1, o desemprego subiu para 12,6% no Brasil. Somente nesse mês foram 4,9 milhões de pessoas desempregadas, por conta da crise do coronavírus.

Esse número recorde e desanimador não é visto só no Brasil, mas em muitos países do mundo, que foram afetados pela disseminação do vírus de origem chinesa. Isso fez com que entidades trabalhistas e relacionadas aos direitos humanos apoiassem o Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho.

O documento propõe uma reflexão global sobre o trabalho e foi divulgado em veículos midiáticos de todo o mundo. Em nosso país, o responsável pela publicação foi o jornal Folha de São Paulo.

O Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho tem feito com que as empresas repensem a forma como tratam os seus colaboradores, desenvolvendo novos tipos de relações trabalhistas. 

Compreender sobre o assunto é extremamente relevante para os empresários e também gestores de RH. Afinal, é no setor de recursos humanos que as relações trabalhistas geralmente têm início.

Como se trata de algo com pouca informação disponível sobre o assunto, desenvolvemos este artigo. Vamos explicar o que é o Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho, como ele surgiu, quais são os seus objetivos e como ele chega nas empresas de todo o mundo.

Interessado em obter todas essas informações? Então continue a leitura conosco!

O que é o Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho?

O Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho é um documento que circulou por várias universidades do mundo, recebendo as assinaturas de diversos membros do universo acadêmico, professores e intelectuais de diversas áreas. Ele foi criado em meio a crise deflagrada pela pandemia do novo coronavírus, por conta de uma reflexão em escala global sobre os ambientes de trabalho.

O documento chama atenção dos empresários e da população em geral para a importância de democratizar e desmercantilizar o ambiente de trabalho, pedindo às empresas que obtêm financiamento público, que respeitem o meio ambiente.

A ideia dos criadores é que o Manifesto chegue na alta cúpula administrativa das empresas de  todo o mundo, de modo que os empresários consigam compreender que os trabalhadores não são meros recursos para as companhias, mas sim uma parte essencial para o desenvolvimento das atividades econômicas.

A humanização nas empresas é algo cada vez mais valorizado pelos trabalhadores. As pessoas não querem mais apenas ter um emprego para se sustentar, embora isso seja importante. Elas desejam ocupar um espaço social, um lugar na comunidade em que atuam, demonstrando a sua importância para o desenvolvimento da sociedade.

Um jornalista, por exemplo, tem o papel de informar, enquanto o enfermeiro tem o dever de cuidar das pessoas doentes e o cozinheiro de preparar refeições para que os demais possam se alimentar. O mesmo ocorre com cada uma das milhares de profissões que existem, sendo que cada uma delas têm um papel importante para o desenvolvimento social como um todo.

Em suma, é isso que o Manifesto resgata, trazendo para as empresas uma ideia de que vale muito a pena investir no capital social que os seus colaboradores representam. Com funcionários recebendo um bom salário e cumprindo um papel adequado, se aumentam as oportunidades deles conquistarem grandes feitos na companhia.

É sobre isso que fala o Manifesto, sobre empoderamento dos colaboradores e um trato mais humano com todos. 

No próximo capítulo, explicaremos com mais detalhes sobre como esse documento surgiu e tomou grandes proporções em todo o mundo.

Como o Manifesto surgiu?

Observando a forma como as empresas se comportam com os seus colaboradores durante a pandemia do novo coronavírus e a crise gerada por sua consequência, três acadêmicas criaram o Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho. São elas:

  • Julie Battilana, da Universidade  Harvard, nos EUA;
  • Dominique Méda, da Universidade Paris-Dauphine, na França; e
  • Isabelle Ferreras, da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.

Depois de criado pelas estudantes, o documento começou a circular por universidades de todo o mundo, recebendo o apoio e a assinatura de diversos acadêmicos, docentes e também da população em geral.

Entre as pessoas que assinaram o Manifesto, estão alguns nomes bastante conhecidos em suas áreas de atuação. Veja alguns deles:

  • Thomas Piketty, economista francês conhecido mundialmente por suas pesquisas sobre desigualdade;
  • Dani Rodirk, economista turco que estuda sobre o desenvolvimento e globalização;
  • Katharina Pistor, professora de Direito e especialista em regulação financeira;
  • Lisa Herzog, filósofa alemã;
  • James K. Galbraith, economista americano, especialista em políticas públicas e filho de John Kenneth Galbraith, um dos economistas mais influentes do século XX.

No dia 16 de maio, depois de conseguir milhares de assinaturas, o Manifesto foi publicado em grandes canais da imprensa de todo o mundo,tais como: Le Monde (França), Die Zeit (Alemanha), Le Soir (Bélgica), The Boston Globe (EUA), The Wire (EUA) e Folha de São Paulo (Brasil).

No próximo capítulo explicaremos mais detalhadamente quais são os objetivos do Manifesto, ponto a ponto. Continue conosco!

Quais são os seus objetivos?

O principal objetivo do Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho é não tratar os trabalhadores apenas como recursos, mas sim como o que há de mais relevante para as organizações. O documento aponta que, durante a pandemia do novo coronavírus, esse foi um dos grandes aprendizados a que se chegou.

Cuidar dos doentes, entregar comida e medicação por delivery, limpar as ruas e juntar o lixo, repor as prateleiras e atender nos caixas de supermercado, abastecer carros nos postos de gasolina etc. Todas essas funções são essenciais para o bom andamento da sociedade e tiveram que continuar sendo desenvolvidas, mesmo em períodos de isolamento social. 

De acordo com o Manifesto, as pessoas que mantiveram a continuidade da vida durante a pandemia de Covid-19 são a prova viva de que o trabalho não pode ser reduzido a uma mera mercadoria.

Tendo esse entendimento, confira, a seguir, quais são os principais pontos do Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho, que formam os seus objetivos.

Compreender a saúde humana como um cuidado vulnerável

O Manifesto aponta a saúde humana como um dos cuidados mais vulneráveis, que não podem ser governados apenas por forças do mercado. 

O documento diz que, se deixarmos essas decisões somente para o mercado, se corre o risco de exacerbar desigualdades, a ponto de os menos favorecidos perderem a própria vida.

Envolver os empregados nas decisões que envolvem as suas vidas

O documento diz que as empresas devem envolver os seus empregados nas decisões relacionadas às suas vidas e ao seu futuro no local de trabalho, democratizando as companhias.

Nesse mesmo sentido, o Manifesto sugere que ocorra uma desmercantilização do mercado, garantindo um emprego protegido para todos e todas.

Permitir a dignidade dos trabalhadores como cidadãos

Entre os objetivos do Manifesto também está a permissão da dignidade de todos os trabalhadores como cidadãos. Segundo o documento, no momento em que enfrentamos um monstruoso risco de colapso pandêmico e ambiental, fazer mudanças estratégicas é fundamental.

Somente isso garantirá a dignidade de todos os cidadãos, organizando a força e o esforço coletivo, necessários para preservar a nossa vida no planeta.

Compreender os trabalhadores como algo além de um recurso

O Manifesto entende que o capitalismo sempre buscou tornar invisível o termo “recursos humanos”. As autoras do documento entendem que os seres humanos não são apenas um recurso entre tantos outros, como se fossem meros objetos.

Ainda consta no Manifesto que, sem trabalhadores, não existiria produção, serviços ou sequer empresas. Por isso, os funcionários devem ser vistos como o que há de mais valioso para as organizações.

Estabelecimento de relações de confiança

Um trecho do Manifesto comenta que “todas as manhãs, homens e mulheres em quarentena acordam em suas casas para cumprir, de longe, as missões das empresas para as quais trabalham. Eles trabalham noite adentro. Para aqueles que acreditam que empregados não são confiáveis para exercer suas atividades sem supervisão, que exigem vigilância e disciplina externa, estes homens e mulheres estão provando o contrário”.

De tal maneira, o Manifesto se posiciona demonstrando uma necessidade das empresas confiarem mais em seus colaboradores, principalmente considerando que o home office deve crescer muito, mesmo após a pandemia ser superada.

Compreender os colaboradores como algo além de um grupo de interesses

Também está descrito no Manifesto que os colaboradores das empresas não devem ser vistos como um grupo de interesses qualquer, como os fornecedores, por exemplo.

Isso porque, de acordo com o documento, são os empregados que têm as chaves para o sucesso de seus empregadores. O Manifesto traz que “eles são o núcleo constituinte da empresa, mas, no entanto, são os mais excluídos da participação das  decisões de seus locais de trabalho, um direito monopolizado pelos investidores de capital”.

Ter a democracia como forma de reconhecimento para os colaboradores

Segundo o Manifesto,a melhor forma que as empresas têm para reconhecer os seus colaboradores, principalmente em tempos de crise, é a democracia. 

O documento diz que as empresas e a sociedade devem buscar meios para “eliminar o enorme abismo de desigualdade de renda e elevar o piso da renda de trabalhadores – mas isso por si só não é suficiente”.

Proporcionar um aumento dos direitos para os órgãos representativos

O Manifesto explica que a representação dos empregados no local de trabalho existe na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial, por meio de instituições denominadas de Conselhos de Trabalho. Apesar disso, as autoras do documento acreditam que esses órgãos são fracos e não têm uma voz representativa e significante.

Há uma crítica às entidades que representam a classe trabalhadora, tendo em vista que “elas foram incapazes de parar ou até retardar o momento implacável da acumulação de capital que serve a si próprio, cada vez mais poderoso na destruição do nosso meio ambiente”.

O grupo que assina o Manifesto acredita que os órgãos representativos devem ter direitos semelhantes aos exercidos pelos conselhos executivos. Para isso, “poderia ser exigido, por conselhos que representam trabalhadores e acionistas, que gestores de empresas (ou seja, alta gerência) somente obtivessem a aprovação de decisões com dupla votação majoritária”. Somente assim, segundo as autoras, os órgãos representativos teriam direitos semelhantes aos exercidos pelos conselhos executivos.

Garantir aos trabalhadores o direito de eleger representantes nos conselhos

O Manifesto também aponta sobre a necessidade de garantir aos trabalhadores o direito de eles elegerem os representantes nos conselhos das organizações. A ideia é que os empregados tenham mais voz nas decisões tomadas pelas companhias.

De acordo com o documento, “questões como a escolha de um presidente, a definição das principais estratégias e a distribuição de lucros são importantes demais para serem deixadas apenas aos acionistas. Um investimento pessoal de trabalho; isto é, da mente e do corpo, da saúde – da própria vida – deve vir com o direito coletivo de validar ou vetar essas decisões”.

Ter uma gestão de empregos e insumos na área da saúde não conduzida visando apenas o lucro

Segundo o Manifesto, “há tempos a gestão de empregos e insumos na área da saúde tem sido conduzida sob a ótica do lucro; hoje, diante da pandemia, é revelada a extensão da cegueira a que fomos submetidos diante de tais princípios”.

Essa afirmação mostra que os autores do manifesto pretendem fazer com que a geração de empregos e os insumos da área da saúde sejam vistos mais como uma necessidade social do que como uma forma de ganhar dinheiro.

O Manifesto vai mais além, comentando que “a crescente contagem de corpos ao redor do mundo é um lembrete sinistro de que certas coisas nunca devem ser tratadas como mercadorias”. Ainda há um trecho do documento que diz que a “rentabilidade é uma métrica inaceitável de sucesso quando consideramos nossa saúde e nossas vidas neste planeta”.

Garantir empregos a toda a população

Também é a apontado pelo Manifesto, a necessidade de garantir empregos a toda população. De acordo com o documento, “‘a garantia de emprego não só ofereceria a cada cidadão a oportunidade de um trabalho digno, mas também seria um vetor de propagação de mudanças coletivas em questões sociais e ambientais tão urgentes”.

As autoras do documento defendem a criação de programas governamentais, em parceria com as empresas, para garantir renda para a população desempregada. Também devem ser criadas políticas para uma rápida recolocação, quando alguém precisar ser demitido.

Criar um plano de recuperação da crise com remediação ambiental

O Manifesto explica que não é possível reagir à crise de 2020 da mesma maneira como se reagiu à crise de 2008, última grande recessão econômica mundial.

Conforme consta no documento, “se nossos governos intervirem para salvar negócios na crise atual, então negócios também devem agir estrategicamente, buscando atingir condições básicas de democracia”.

No documento também consta que, “em nome das sociedades democráticas a que servem, e das quais são constituídos, em nome da responsabilidade de garantir nossa sobrevivência neste planeta, nossos governos devem garantir que os auxílios a empresas estejam atrelados a determinadas mudanças de conduta”.

Isso quer dizer que o Manifesto acredita que as empresas que conseguirem auxílio dos governos para se recuperarem da crise, necessitam estar focadas em não apenas maximizar lucros, mas sim em investir com consciência social e gestão cooperativa, tendo metas híbridas, que mesclam os ganhos financeiros com o desenvolvimento social e ambiental da sociedade.

De fato, o Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho traz diversos pontos que sugerem mudanças significativas nos processos adotados por muitas companhias. No próximo capítulo, explicaremos como tudo isso vem sendo absorvido pelas companhias de todo o mundo.

Como esse Manifesto chega nas empresas de todo o mundo?

Agora que você já conhece os principais pontos do Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho, deve estar se perguntando sobre como as empresas de todo o mundo estão recebendo as demandas levantadas pelo documento.

As impressões são diversas, sendo que alguns empresários compreendem que o documento tem um forte teor político e focado no cumprimento de uma ideologia comunista. Porém, não é essa a opinião da maioria das empresas e entidades de classe.

Muitos compreendem que o Manifesto não é um desdobramento do pensamento comunista, mas sim de um capitalismo mais humanizado. É óbvio que as empresas devem pensar no lucro, uma vez que é isso que move as organizações e garante a sua sobrevivência no mercado, que é cada vez mais competitivo.

No entanto, muitos empresários já compreendem sobre a necessidade de focar mais no lado humano dos colaboradores. É isso que deve nortear as relações de trabalho nos próximos anos. Os funcionários devem ser mais voz e as suas opiniões ouvidas e respeitadas, bem como trabalhar em condições de trabalho dignas.

A confiança também deverá ser maior, tendo em vista que o teletrabalho deve crescer, já que as empresas investiram em tecnologia para continuar trabalhando durante a pandemia de Covid-19 e agora têm estrutura para isso.

Aliás, o teletrabalho é uma das principais ações que as empresas estão desenvolvendo para dar mais dignidade aos trabalhadores. Para alguém que mora longe da sede da companhia, por exemplo, vale muito mais a pena trabalhar em casa ou em um coworking próximo da sua residência, do que precisar perder horas do dia andando em um trem ou metrô. 

Conclusão

Compreender todos os pontos do Manifesto Internacional em Defesa do Trabalho é importante para os empresários e gestores de RH. Mesmo que nem todas as companhias concordam 100% com tudo o que o documento traz, é interessante compreender os pontos principais, que denotam uma mudança de pensamento na sociedade.

As pessoas estão se preocupando mais sobre o papel social do trabalho e das empresas. Compreendendo isso, você poderá gerenciar melhor as estratégias de RH, reduzir o turnover e conquistar colaboradores cada vez mais engajados com a companhia.

Caso deseja fazer a leitura do Manifesto na íntegra, pode acessá-lo no portal da Folha de São Paulo.

Esperamos que o nosso conteúdo tenha sido útil para você. Lembre-se que ele pode ser acessado  a qualquer momento e você tem liberdade para compartilhá-lo com quem quiser. Obrigado pela leitura e até a próxima!

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